Testemunhos


Uma carta de Bento de Jesus Caraça a meu pai

Lina Seabra Dinis, médica


Em Janeiro de 1945, o meu pai, Joaquim Seabra Dinis, médico psiquiatra, publicou na "Biblioteca Cosmos" um livro duplo (76,77) sobre " Psicanálise". Tendo enviado o original ao Professor Bento Caraça, antes da sua publicação, este fez-lhe uma série de observações que, aliás, o meu pai achou muito pertinentes. Quero chamar a atenção para o cuidado com que Bento Caraça lia os livros a publicar na colecção e o seu esforço para que a sua leitura fosse acessível a qualquer pessoa, fosse qual fosse o seu grau de instrução.

Carta de Bento Caraça a Joaquim Seabra Dinis

1944, 16 de Agosto
Costa da Caparica

Meu Caro Amigo:

Não consegui terminar a leitura do seu trabalho antes dos exames de aptidão mas, uma vez acabados (antes d'ontem!) retomei-a. Só tenho que dizer bem e felicito-o e felicito-me por isso.
Tanto na parte expositiva como crítica tudo está feito com clareza e medida; estou convencido de que é um livrinho que vai prestar bons serviços.
Só em três pontos me permito fazer sugestões:
1.º Um vocabulário no fim. Apesar de a sua exposição ser muito simples na linguagem, lá aparece de vez em quando um ou outro palavrão técnico; por outro lado, o leitor pouco ao corrente destas coisas esquece com facilidade a definição precisa de um termo e tem dificuldade em encontrar o local dela. Por isso me parecia bem um vocabulário - índice nas seguintes condições:
a) remissivo aos lugares onde as definições são dadas;
b) explicativo dos termos não definidos e de uso menos corrente na linguagem diária.

2.ºCap. XX pág. 96 e 97 . Concordo inteiramente com a doutrina e desejava uma maior explanação referente a campos que apenas aflora, como o folclórico, o artístico em ligação com o fenómeno social fundamental- a descrença no progresso.

3.º Sobre a psicologia individual. Não lhe parece que o próprio fundamento da teoria de Adler - uma atitude finalista, fixada desde os primeiros tempos da infância - merece umas palavras de crítica?

O original fica hoje na sede das Edições Cosmos - rua da Emenda, 11-2º .
Disse-me que queria juntar-lhe alguns parágrafos. Se vir que têm alguma coisa de aproveitável as sugestões que aqui faço, poderia fazer tudo junto.
Em todo o caso, o original fica lá à sua ordem e logo que o dê como pronto ele começará a ser dactilografado para seguir para a Censura.(…)
Aceite as saudações cordeais de

Bento de Jesus Caraça

As minhas recordações das lições do Professor Bento de Jesus Caraça e da sua personalidade

Maria Manuela Fisher, Licenciada em Economia, ex-aluna de Bento de Jesus Caraça

 

 

 

Recordo a minha entrada no Instituto Superior de Ciências Económicas e Financeiras (I.S.C.E.F.) em 1943 e a alegria e satisfação que isso me deu, só ensombradas pela dificuldade que teria, segundo me diziam, em fazer as Matemáticas Gerais, regidas pela Professor Bento Caraça.
Recordo as suas aulas. Saíamos da aula anterior e íamos logo para a entrada da sala onde ele ia dar a sua lição, pois quando a porta se abria, precipitavamo-nos, para ver se conseguíamos lugar na primeira fila de carteiras, o que nem sempre era fácil. O número de alunos parece que duplicava e muitas vezes ficávamos aos três em cada carteira e lá para o fundo havia quem ficasse de pé. Não eram repetentes; sei hoje que havia alunos do Técnico e da Faculdade de Ciências que se deslocavam ao I.S.C.E.F. para seguir as suas lições. E que lições! Duma clareza de exposição e duma afabilidade e simpatias pessoais, que o aluno se sentia cativado e atraído, não só pela matéria, como pela personalidade do Professor. Por vezes acontecia, e comigo aconteceu, que o professor parava a exposição e dirigindo-se directamente a um aluno, perguntava: "não está a ver como se chegou aqui? eu explico novamente". E com toda a simpatia e boa vontade repetia a exposição. Claro que no meu caso me sentia envergonhadíssima, e também muito me admirava , como é que ele, numa sala cheia, conseguia detectar, que este ou aquele aluno não estava a seguir o seu raciocínio. Não é necessário recordar, que naquela época, o procedimento da generalidade, ou a quase totalidade dos professores era bem diferente.
Quando as aulas acabavam havia muitos alunos que saíam, mas recordo bem, que havia sempre alunos que ficavam na sala, à volta do Professor Caraça, a tirar dúvidas, ou a falar com ele sobre outros assuntos.

Em 1943, entraram comigo para o I.S.C.E.F., onze raparigas, o que para a época, foi um acontecimento. Julgo que ao todo nos outros anos não haveria mais de seis. Então dentro do espírito da época - rapazes para um lado, raparigas para outro- criou-se uma sala de estar para raparigas.
Depois começámos a desenvolver actividades dentro da "nossa" sala. Pequenas exposições, palestras, geralmente sobre problemas da mulher e outras.
Das pessoas que nos ajudavam nessas iniciativas, recordo o Professor Caraça que estava sempre pronto a nos indicar pistas e que nunca faltava a nenhuma palestra, sentado na primeira fila, ouvindo com toda a atenção e no fim chamando a oradora para a elogiar ou fazer a sua crítica.
O tempo não pára, e hoje tenho pena de não ter aproveitado mais da sua convivência e ensinamentos, da sua extraordinária visão do mundo e trato pessoal absolutamente for a do vulgar, não falando já dos seus conhecimentos científicos, sobre os quais não sinto condição para julgar.

Sessão de Homenagem a Bento de Jesus Caraça 9 de Junho de 2000 Cidade de SEIA,

Quando, no Verão de 1933, conheci Bento Jesus Caraça por intermédio de um amigo comum, o meu primo Dr. Joaquim Jacobetty Rosa, economista, autor da mais conhecida e parecida fotografia de Bento Caraça, que aliás figura na contra-capa dos Conceitos Fundamentais, na conversa então estabelecida, eu, aluna do 3º ano do Liceu Maria Amália Vaz de Carvalho, e ele professor do Instituto Superior de Ciências Económicas e Financeiras, Bento Caraça fez-me aquelas perguntas que é costume fazer aos estudantes: em que Liceu anda, em que ano anda, quais as disciplinas de que mais gosta, e assim por diante. Lembro-me que a minha resposta foi lapidar: “Gosto de tudo menos de matemática…”. A resposta de Bento Caraça foi igualmente lapidar: “Não gosta mas vai passar a gostar; todos podem gostar de matemática “. E assim aconteceu.

No fim dessas já tão distantes férias passadas na Caparica, e em outras que se lhe seguiram, as equações de 1º e 2º grau deixaram de ter segredos para mim e esse misterioso binómio discriminante, que antes me aparecia como um ser imprevisível, passou a ter uma leitura clara, quer se apresentasse positivo, quer negativo. Quando negativo, aprendi que as raízes da equação eram “imaginárias”. Bento Caraça não queria que eu dissesse “imaginárias”. “Imaginário é o que não existe; essas raízes existem tanto como as outras; são apenas diferentes”. Interiorizei também, sem problemas, o que é um número transcendente. Através de círculos em cartolina que Bento Caraça me fazia construir e dos respectivos perímetros que eu media com pedaços de cordel, apareceu, luminoso e sempre igual a si próprio, esse misterioso p, que Bento Caraça me fez conhecer, dizendo-me que existiam outros com as mesmas características de transcendência que só mais tarde me seriam apresentados. Lembro-me que, ainda nesse mesmo Verão, Bento Caraça me ensinou como pode ser belo o cálculo logarítmico. Foi a sua velha tábua de logaritmos que serviu esses meus primeiros voos no mundo dos logaritmos e me permitiu encher páginas e páginas de cálculos e contas que, no fim, eram como que um rendilhado abstracto no qual poucas pessoas entravam. Seguiu-se depois a primeira abordagem do mundo das funções, com representações analíticas e gráficas, feitas em papel milimétrico transparente, onde eu registava diariamente, de manhã e de tarde, a horas certas, a temperatura da água do mar, medida com um termómetro que Bento Caraça comprara para o efeito. Foram todos os cambiantes da matemática que, ao longo de muitos anos, conheci através das lições de Bento Caraça. Aprendi a gostar de matemática. Nas cadeiras do curso geral de engenharia do Instituto Superior Técnico ligadas à matemática – Matemáticas Gerais, Cálculo Geral e Mecânica Racional – regidas então pelos professores Ferreira de Macedo e Mira Fernandes – consegui marcar uma posição de primeira linha entre os alunos mais classificados. E foram muitos, também, todos os ensinamentos no domínio do conhecimento literário e científico que dele recebi e que contribuíram, de facto, para uma cultura geral sólida que muito útil foi para a aquisição da cultura técnica inerente ao curso de engenharia.

Nos finais da década de 30 – anos 38, 39 – os "Conceitos Fundamentais da Matemática" já se encontravam em gestação adiantada, tendo eu começado a fazer os desenhos correspondentes a cada capítulo, à medida que o Bento Caraça os ia escrevendo, nos anos 40 e 41.

Os "Conceitos Fundamentais da Matemática" estavam destinados a ser uma das pedras angulares do edifício constituído pela Biblioteca Cosmos, cujo projecto, por essa época, estava também já delineado.

Não quero deixar de fazer aqui um reparo sobre o que significou, para Bento Caraça, a publicação da Biblioteca Cosmos. Há muito que ele acalentava a ideia de construir uma biblioteca popular a qual, sem deixar de ser científica, fosse concebida e redigida de modo a permitir ao homem vulgar, ao não especialista, tomar consciência do mundo que o rodeia e, principalmente, facultar àqueles que não tinham meios económicos suficientes, adquirir bons livros a baixos preços. Tal tarefa foi difícil e esgotou muitas das suas energias. Nem sempre era fácil encontrar os autores para tratar os vários temas, havendo então que recorrer a traduções de obras que tinham de ser habilmente escolhidas com o objectivo de se enquadrarem no espírito geral da Biblioteca. Pode dizer-se que nenhum dos domínios da ciência, da história, da filosofia, da música, da geografia, da literatura, etc. que dominaram o tempo de Bento Caraça há seis décadas atrás, ficou por tratar.

Os "Conceitos Fundamentais da Matemática" constituíram a pedra angular da Biblioteca Cosmos e representaram para Bento Caraça, não direi a coroação da sua obra, mas algo que ele não queria deixar de fazer, como legado às futuras gerações e como afirmação da sua convicção mais íntima, isto é: todos podem gostar de matemática.

A perspectiva sob a qual Bento Caraça considerava o seu próprio livro está contudo claramente definida no §22 do Cap. III – Equações algébricas e números complexos (Parte II) – Passo a citar:

“Não se faz ideia, à primeira vista, da quantidade e importância de domínios novos que a criação dos complexos permite abrir. A noção de complexo e a noção de infinito são dois dos principais instrumentos da matemática moderna e, no emprego generalizado desses instrumentos, reside talvez a sua maior diferença em relação à matemática antiga. Tendo trazido o leitor, através de uma curta digressão técnica, até às fronteiras desta construção grandiosa, detemo-nos aqui. O servir-lhe de cicerone em tais domínios é missão de outros que não deste livrinho de vulgarização”.

Posição de uma inegável modéstia que aliás caracterizou Bento Caraça ao longo da sua vida, apesar de ter atingido as mais altas esferas do domínio do conhecimento.

 

 

 

 

Olga Pombo opombo@fc.ul.pt